Coluna do Arisi

José B. pegou o metrô errado, se perdeu e nunca mais voltou. 

Era uma vez um jovem idealista, como se dizia dos sonhadores. Um amigo músico dizia que ele era um poeta, um filho da lua. Era tímido, calado e amava livros, filmes clássicos e as jovens bonitas do bairro classe média, em que sua família morou por décadas. Tinha dois irmãos, que se mudaram para outra cidade. Autodidata e desinteressado no que os professores ensinavam no colégio, gostava de escrever e ler filosofia. Seus pais morreram. Aos 28 anos namorava uma jovem bonita e rica, que conheceu na biblioteca pública do bairro. Após um longo namoro, ficaram noivos e até marcaram para casar no fim do ano e viver no mesmo bairro da grande metrópole em que todos moravam há muito tempo. Um dia, José B. foi ao centro da cidade comprar um livro do Jack Kerouac e “La Dolce Vita” do Fellini. Ao voltar para casa, pegou o metrô da linha amarela, quando deveria ter pego o metrô da linha azul. Desceu numa parada muito estranha, como se fosse uma outra cidade, num país diferente. Viu que tinha se enganado e que precisava voltar ao centro, novamente e pegar o metrô de volta à sua vida de sempre. Sua vida de sempre, pensou e repetiu: de sempre. Sempre. Sua vida era a mesma de sempre, para sempre infeliz, como sempre foi. Deu uma caminhada pelas ruas diferentes, daquele bairro diferente. Entrou num café e sentou junto a uma janela que dava para um um jardim, como o que havia em sua casa, na infância, em uma pequena cidade do interior. Uma jovem interrompeu sua viajem contemplativa ao passado. 

“Boa tarde, o que deseja ?”  

“Mudar de vida! Opa, desculpe, pode ser um café forte, para me acordar.”

 Logo ela voltou com o café, uns biscoitos de nata, um copo de água, e um pequeno vaso com violetas. Quando ia comentar sobre as violetas, ela interrompeu, dizendo que eram violetas de seu jardim, que ele contemplava antes. Nunca tomara um café tão bom e nunca vira uma moça tão simpática atendendo num café. Ficou muito tempo sentado naquela mesa, pensando, olhando o jardim de violetas e sorvendo aquele café com afeto e simpatia. A jovem voltou com um bule de café bem quente e encheu sua xícara novamente. José B. estava na iminência de dar uma virada de vida. Disse para a moça que estava perdido e à procura de uma nova vida,  um novo começo, talvez. Clara, colocou a mão em seu braço e disse que o pai dela, dono do Café, precisava de um novo gerente para o café, já que ele tinha um outro negócio para cuidar. E foi assim que José B. ficou lá, para sempre. Casou com a Clara e nunca mais soube da vida que deixou para trás, sua ex-noiva e sua família, que pouco ligava para ele e o que desejava fazer de sua vida. Muitos anos mais tarde, José B, pegou o metrô da linha amarela e depois o metrô da linha azul e foi até seu antigo bairro. Ficou sabendo que sua ex-noiva casara com o gordo, seu vizinho. Seus dois irmãos haviam se mudado para Portugal e a vida de todos continuou sem ele e sem maiores sobressaltos. José B. voltou para seu novo lar, sua Clara, seu casal de filhos, a nova vida, que um erro de linha de metrô o levou para sempre, quando saiu para comprar um livro e se perdeu no metrô. 

paulo.arisi@gmail.com

As opiniões contidas nesta coluna são de responsabilidade de seu titular e não refletem necessariamente a opinião do Fumetta.


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