Coluna do Arisi

Cantar, a suprema arte individual. O artista sendo sua arte. Não prescinde de nada fora de si mesmo. Tive noção exata desta singularidade, quando fui me despedir de um dos três maiores cantores do mundo, como afirmava Frank Sinatra, sobre meu amigo, com quem tive o privilegio de conversar longamente, por mais de uma hora, no bar do Hotel Everest, tomando cognac português Macieira, numa inesquecível tarde de 1968, horas antes de sua aclamada apresentação em Porto Alegre. Matt Monro, o maior cantor da Inglaterra, fez sucesso internacional ao cantar a canção tema de um clássico filme de 007, “From Russia with Love”, e “Born Free” no filme “A História de Elza”, entre outros sucessos do cinema. Ao vê-lo sozinho na frente do carro que o levaria para o aeroporto, percebi que ali estava o artista solo, só e único. O escritor escreve um livro, o pintor pinta um quadro, o compositor escreve uma música, o cantor e a cantora só abrem a boca e cantam, nada mais é necessário. Se houver um piano ou uma orquestra melhor, mas não é imprescindível. Cantamos no banheiro nossa alegria, nossa felicidade, nossos sentimentos mais íntimos, nus, molhados, solitários. Na época eu estudava canto com o maestro Roberto Eggers, na rua da República. Era o que eu gostaria de ter sido: um cantor. Matt Monro me incentivou a cantar e até fizemos um dueto com “Yesterday”, dos Beatles, íntimos amigos dele, que tinham o mesmo produtor e arranjador, George Martin, “o quinto Beatle”. Também conheci e cantei um pouquinho, junto com meu ídolo brasileiro, Dick Farney, ao piano no Flags, na Avenida Atlântica, em Copacabana, em 1975. Outro cantor de quem Sinatra era fã e amigo. Foi a melhor voz que o Brasil já ouviu. No cine Cacique ouvimos Vic Danone, cantor e ator. Ele riu muito quando eu pedi para ele dar um beijo, por mim em sua esposa, que eu, respeitosamente, amava. Pier Angeli, a belíssima atriz italiana que foi o grande amor de James Dean e acabou casando com o cantor de “Um Estranho no Paraíso”, cuja linda canção titulo resume o que são todos os cantores: estranhos em seu paraíso. Quando a cantora americana Brenda Lee se apresentou no Cinema Imperial, nos anos 60, antes dela, cantou a gaúcha Elis Regina. Eu estava na lateral do palco com o produtor americano de Brenda, que ficou entusiasmado com a voz da “pimentinha” em início de carreira. Contei para Elis a admiração que ela causou. Ela me olhou sorrindo, com aquela certeza dos que sabem que são muito bons no que fazem. Em 1973, no bar Cabral 1500, na praia do Arpoador no Rio de Janeiro, sentou a meu lado um turista de calça de veludo roxo e blusa amarela e uma moça. Sorrindo e falando inglês britânico, logo conversamos sobre o dia lindo, a praia e o chopp. Era um cantor, ainda desconhecido no Brasil, chamado Mick Jagger. Pedras rolantes chegando, com sua grande paixão pelo Brasil. “Quem canta seus males espanta”.

paulo.arisi@gmail.com


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